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 Olá a todos e todas!



A crise sanitária, que ainda assola a humanidade, parece que vai terminar mais rápido em alguns lugares do que em outros o que, por si só, é uma característica do capitalismo: Quem pode mais, chora menos.
A tua condição, a tua capacidade está diretamente ligada ao tamanho do teu bolso e como tu faz para preencher este bolso e o que tu fazes com o dinheiro. Quando se discutem governos, este final da última frase "o que tu fazes com o dinheiro" pode ser traduzido como vontade política. 

Se tivéssemos um governo que aceitasse a ciência, não precisava nem entender, bastava aceitar. Isso mesmo, ACEITAR! Mas, como se sabe, não foi que aconteceu. 

Bolsonaro trocou de ministro como alguém que troca de roupa, tratou de divulgar remédios sem a menor serventia ao combate à Covid19, retardou a compra de vacinas além de estar em um mar de denúncias que aparecem nas sessões da CPI da Pandemia que acontece no Senado Federal. A mais recente denúncia de uma propina de 1 dólar por dose de vacina, intermediada por uma empresa localizada em um paraíso fiscal, faz qualquer movimento de corrupção da história recente inclusive a Lava Jato, parecer brincadeira no recreio da escola.

Enquanto isso, mesmo com a pandemia, vemos um movimento contra Bolsonaro e sua política destrutiva, levando multidões às ruas para exigir sua saída. As pessoas mostram sua inconformidade ante toda esta sorte de denúncias contra um governo que diariamente derrete um pouco mais. No mais recente, segundo divulgação de grande imprensa, ocorreram atos em todas as capitais, no distrito federal e mais de uma centena de cidades. Há quem diga que se empurrar ele cai. Será? 

Fica a dica para a reflexão sobre tudo isso que estamos vivenciando e anotem nas suas agendas:

#JCinforma: de segunda a quinta, a partir das 21h, como Pedro Araújo e outro editor (Cláudio Porto, Adriano Garcia, Artur Luiz e eu mesmo) debatem os assuntos do dia.

#BatePapoCultural, sextas-feiras às 20h , eu recebo alguém do cenário da cultura brasileira.

#RedaçãoJC, aos sábados às 15h: Cláudio Porto e os editores debatem os assuntos da semana


Um forte abraço e todos e todas.

Ulisses Santos.







Olá a todos e todas!  Como vocês estão? Por aqui, vai-se indo...

Na coluna da semana passada discuti a proposta de retorno às aulas presenciais em todos os níveis. A verdade é que quem decide, ou sugere como eles gostam de dizer, pelo retorno das aulas presenciais dá entrevistas via meet, online...de qualquer modo, mas nunca presencial. Todos os grandes eventos no Rio Grande do Sul ou foram cancelados ou serão online. Se é assim com todos, porque as aulas tem que voltar ao presencial? Mas, se você quiser ler mais sobre o que escrevi na coluna, clique aqui.

Desde pequeno sempre fomos acostumados com o sete de setembro e toda a sua simbologia. A história por trás do processo de independência, os símbolos presentes no quadro "Independência ou Morte",de Pedro Américo sempre serviram para ilustrar o famoso "dia da pátria", mesmo que não se entendesse o real significado daquela obra.

Onde está o povo neste quadro?


Mas este ano o sete de setembro mudou de significado. Lula mudou o significado desta data. Em seu último discurso antes de ir para o cárcere em Curitiba, Lula disse algo que, naquele momento, até pareceu pretensioso: "Eu sou uma ideia." Lula estava errado. Lula não é uma ideia...Lula é o tempo, o tempo verbal. Desde o momento que ficou-se sabendo que o presidente Lula iria se pronunciar as pessoas mudam seus sentimentos sobre o que dirá o ex-presidente. Na lenda maia, Lula é um homem de milho esperado por uns com medo, por outros com esperança.

E Lula discursou durante quase trinta minutos. Lula falou sobre a crise da Covid19, a incompetência do governo Bolsonaro. O presidente Lula mais uma vez mostrou uma característica que o torna um pesadelo para qualquer adversário político: o conteúdo de seu discurso. Os adversários devem teme-lo, mais do que teme-lo, devem ter inveja...devem pensar: " Como esse cabra discursa bem!!!"

Lula sabia que as repostas viriam. E elas vieram mais rápido do que ele poderia supor. De um lado, de setores da esquerda, especialmente  no PT as redes sociais vibraram e repercutiram positivamente aspectos e trechos da fala do ex-presidente.

Do outro lado, a resposta veio e em dupla e com claro viés de retaliação. A primeira resposta foi da Câmara dos Deputados em que retomaram a discussão sobre a prisão após condenação em segunda instância. A outra resposta foi a operação da Lava Jato do Rio de Janeiro no escritório de seu advogado, Cristiano Zanin. Fica a impressão que foi uma tentativa dos atores da Lava Jato no sentido de tentar uma sobrevida para a Operação, mesmo depois do acordão "com o supremo, com tudo. Afim de estancar a sangria".

Lula mostrou a que veio, mostrou que está disposta a ir à luta. A verdade é que Lula tem seu destino nas mãos daqueles que ou irão protelar ao máximo e o quanto puderem ou ainda darão resposta contrária aos seus interesses. Se a justiça fosse realmente isenta e justa, deixaria com que Lula voltasse a vida pública para disputar uma eleição. Daí, veríamos do que esta nação é feita. 

Volta Lula, nosso homem de milho!

Livro da semana: "Frida e Trotsky", Gerard  de Cortanze

Até semana que vem.

Saudações,

Ulisses B. dos Santos.

Twitter e Instagram: @prof_colorado

Sobre a Coluna

A coluna SobreTudo é publicada sempre às terças-feiras.





Fernando Henrique foi o presidente que “doou” as maiores riquezas do Brasil a grupos privados. Privatizou e privou do brasileiro, entre outras, a Vale do Rio Doce, que anos depois, reflexo do capitalismo e lucro a qualquer custo, assassinou famílias e o próprio Rio Doce, em Minas Gerais. Ele é a cara do Liberal perfumado, como Tabata Amaral, ao contrário de Paulo Guedes, que com suas caspas e odores, representa a parte chucra dessa política direitista, mas querem a mesma coisa. O sonho guedista Banco do Brasil – Petrobrás – Correios, já povoava as noites de FHC nos anos 90.



A Folha de São Paulo apoiou e deu sustentação midiática e material ao Golpe de 64, incentivou a patrocinou o Golpe de 2016, e ela agora quer que a turma vista amarelo. O mesmo se diz da Globo, que censurou o “Intercept” em seu noticiário e ainda se vê agarrada à Lava-Jato, a despeito de tudo que já se sabe sobre essa operação criminosa de Curitiba.
Em uma empreitada cega, empolgam-se PMDB, DEM, PSDB e o Centrão, que além de tantas outras coisas em comum, elegeram e ainda ajudam a sustentar Bolsonaro, em troca das reformas contra o povo.
Flávio Dino e Rui Costa, estrelas emergentes, se envaidecem, seduzidos a participar, iludidos com a corte que lhes fazem os golpistas. Boulos e Marcelo Freixo, cada vez mais genéricos e inofensivos, já colunistas e frequentadores íntimos dessa mídia golpista, balançam seus rabinhos.
Gabeira, Roberto Freire, Marina Silva, indivíduos que julgaram merecer mais do que receberam de Lula, alguns com a certeza de serem por ele escolhidos candidatos a presidente, deixaram nascer em si um ódio mortal ao barbudo, principalmente ao perceberem suas insignificâncias em vôos solos. Essa doença do orgulho ferido faz o indivíduo migrar da esquerda para a direita, perdendo o orgulho, e atacou também Ciro Gomes. Com essa gente toda, PDT, PSB e outras coisas ainda mais estranhas.
E o que eles querem, o que faz toda essa gente aparentemente diferente, juntar-se em amarelo como na Copa do Mundo?
A ideia de eleger a direita em 2022, o mesmo truque posto em prática nos EUA para eleger Biden. É o que chamam de “Frente Ampla”, mas uma frente que quer as mesmas coisas que Bolsonaro, e que sonha ter o apoio do PT, para que o partido lhes ofereça, de mão beijada, seus 50 milhões de eleitores.
Acompanhe a ideia, não é um grupo oferecendo apoio a outro ainda maior. O sonho deles é dizer: - Hei, Lula! Temos aqui quase 1 milhão de votos, você pode nos emprestar seus outros quase 50 milhões?
Ciro, você tem muito feijão para comer, e muito tempo ainda para aturar o PT de Lula, que é o único líder popular que temos, o único presidente trabalhador, o único representante das classes populares e operárias. Por que motivo, deveriam os trabalhadores agora, sem nenhuma explicação, trocar o voto nesse PT, pelo voto nos políticos de terno, que rejeitam o “Fora Bolsonaro”?
A frente é à esquerda, e veste vermelho.

Olá a todos, todas! Como estão? Por aqui, estamos indo...

Na minha coluna mais recente procurei mostrar como, além de sermos uma sociedade doente, optamos pela barbárie. Parece que rompemos com qualquer verniz civilizatório, pelo menos é o sentimento que fica a partir dos exemplos que enumero na coluna. Se você quiser (re)ler, clique aqui.

Porém, muitas vezes, a representação da barbárie não é mostrada como algo bruto ou mesmo violento. A barbárie pode estar na nossa frente, com um discurso suave e simpático, quase convincente, bastando para isso que seja mostrada por uma pessoa, digamos, bem alinhada. Uma das características desta nova barbárie é justamente mostrar-se como algo novo, algo inédito quando, na realidade não é nada além da boa e velha barbárie.

Em meio a pandemia da Covid19, a barbárie apresenta-se das mais diversas formas, desde violência doméstica, que é repudiada de pronto por todos, ou por qualquer pessoa civilizada, até discursos que cogitem, por exemplo, a volta às aulas presenciais em meio a pandemia da Covis19.

Ao contrário de Jair Bolsonaro e sua turma, anti-cientificistas por definição, os governadores que defendem o retorno às aulas presenciais valem-se de argumentos, supostamente, baseados na ciência. Por trás da postura e meio ao discurso percebe-se termos que passam a certeza de estar fundado em protocolos, cuidados com a vida e outras coisas. Uma das palavras mais usada neste tipo de discurso é "protocolo". 

Todos sabemos protocolo pode pressupor método e o método leva, lógico a ideia de ciência. O discurso é colocado com todo o cuidado, sempre deixando algum espaço para o questionamento. Mesmo que este questionamento não leve a nenhum lugar.

No momento em que se propõe reabrir as escolas, com pretenso embasamento científico, coloca-se em risco a vida daqueles e daquelas que fazem o cotidiano escolar: alunos, professores, funcionários e familiares. Aquele governante que defende esta postura, na verdade abrindo mão de qualquer argumento científico, deveria lembrar que entre os familiares, professores e funcionários podem ter pessoas do tão propalado "grupo de risco".

Para concluir uma pergunta: vocês perceberam como a pandemia foi esvaziada de sentido nas últimas semanas e, assim, inserida na lógica do "novo nornal"?

E há quem pense que a Covid19 não tem nada a ver com Capitalismo. Vão sonhando, vão...


Livro da semana: "O fascismo eterno", Umberto Eco. (é fácil de achar em pdf)


Até semana que vem.

Saudações,

Ulisses B. dos Santos.

Twitter e Instagram: @prof_colorado

Sobre a Coluna

A coluna SobreTudo é publicada sempre às terças-feiras.

A julgar pelo título, pode parecer que este que vos fala tenha perdido o "timing" do texto, afinal, frases como esta estampada em epígrafe foram ditas já há alguns dias atrás (o que, neste universo acelerado de hoje, é deveras obsoleto).


O assunto que subjaz as aludidas palavras não é, contudo, antigo, ao menos não no sentido de que já não faça mais parte do presente em que vivemos. Ao contrário. Tal espécie de situação é cotidiano em nosso país e, quiçá, no mundo. Assim, proponho-me a analisá-lo neste texto.



Pois bem... segundo veiculado pela mídia, foi o caso de uma pessoa ter sido chamada de 'cidadão', pelo oficial que lhe abordara e, respondendo a isso, proferiu os aludidos termos: "cidadão, não, engenheiro civil", disse.

Assistindo ao vídeo em que este fato ocorre, me peguei pensando: vale mesmo ser cidadão?

O que ser isso e em que medida isso nos difere?

Pois bem... genericamente falando, costuma-se dizer, no jargão popular, que se alguém é cidadão, o é nacionalmente, ou seja, é cidadão brasileiro, é cidadão italiano e/ou, ainda, "possui dupla cidadania".

Assim, seja lá o que se queira dizer com o termo "cidadania", refere-se, ela, ao país ao qual este ou aquele cidadão se vincula (por nascimento ou naturalização).

Aos cidadãos, diz-se, é garantida toda sorte de direitos humanos, como direito a vida, à liberdade de expressão e de crença, etc.

Perceba-se, porém, que tais garantias concedidas aos cidadãos já estão elencadas no rol daqueles direitos normalmente reconhecidos a toda e qualquer pessoa, justamente enquanto direitos universais das pessoas humanas.

Pois se assim o é, então o que se quer dizer quando se diz "cidadão"? O mesmo que "pessoa humana"? Creio que não, pois, fosse o caso, não precisaríamos de duas expressões para nomear a mesma coisa. Ademais, não se costuma falar de pessoa italiana, ou alemã, como convencionalmente se refere ao tratar-se sobre cidadania.

Neste sentido, parece-me que a ideia de cidadania é como um rótulo das pessoas, ou seja, um pedigree, algo do tipo "lulu da Pomerânia", cidadão do brasil, cidadão alemão... todos são animais, igualmente... mas "uns são mais iguais que outros", diria Orwell.

Assim posta, tal nomenclatura parece apontar à uma diferenciação das pessoas quanto à sua procedência. Parece também denotar, contudo, não apenas "de onde a pessoa veio", mas, ao revés, "a quem ela pode e deve reclamar seus direitos". Assim, os cidadãos brasileiros são de responsabilidade do Brasil... Os alemães da Alemanha e assim por diante, estou certo?

Pois se assim o é, caro leitor ou leitora, então resulta que a cidadania é a grande tirania do século. Explico.

Com o advento do Estado moderno, passou a vigorar, em solo Europeu, a noção de que as normas jurídicas, materializadas nos códigos, não necessitavam de interpretação, posto que, à época, o uso das técnicas hermenêuticas era visto como verdadeiro álibi ao abuso de poder, praticado pelos magistrados. Naquele contexto, o ideal era, com efeito, afastar toda e qualquer hipótese de uso despótico de poder. Assim, imaginou-se, que, com o uso puro da razão, se pudesse realizar um sistema plenamente imparcial de regras de convívio a serem seguidas pelos "cidadãos". Assim, 'cidadão', à época, queria justamente indicar isso: sujeito que se submete a este regime, devendo cumprimento a tais normas, sobretudo porque as mesmas espelham nada senão a materialização de seus direitos naturais, posto que advindos da própria racionalidade humana.

Não à toa, a primeira norma (pretensamente) internacional destinada a reconhecer os direitos humanos de maneira universal fora editada ainda em 1789.


Bem... este ideal não deu muito certo naquele período, sobretudo ao longo do que se conhece por Terror, nos finais da Revolução Francesa, sendo, os direitos das pessoas, positivados, em uma lei única, lê-se, num código, somente a partir do período dominado por Napoleão, que, por meio de seu famigerado "Código Napoleônico" instituiu, finalmente, as regras que deveriam valer, de maneira geral, sobre o território dominado por si.

Muito embora Napoleão fosse avesso aos ideais revolucionários que precederam a sua assunção de poder, os intérpretes de seu código o interpretaram, contudo, à maneira da revolução, tendo concebido que o mesmo não deveria ser interpretado pelos juízes, pois não são os magistrados os representantes do poder legitimado para fazer leis e, assim, qualquer interpretação poderia incutir em invasão dos poderes do legislador supremo.


Ocorre, contudo, que este sistema de vedação ao poder/dever de interpretar as leis demonstrou-se, ao longo dos tempos, frouxo e desgastado, sobretudo com a constante aceleração dos negócios havidos em seu meio social.

Com isso, passou-se a conceder certa maleabilidade ao judiciário para que este pudesse, sempre que necessário e possível, realizar certa interpretação das leis, valendo-se, por exemplo, de analogias, para solucionar os casos postos diante de si.

Esta liberdade concedida de maneira limitada aos juízes não fora contudo suficiente para solucionar os problemas das sociedades. Um grande exemplo e, ademais, verdadeiro marco histórico de tal questão fora então a Segunda Guerra Mundial. Como é de conhecimento geral, o regime Nazi-Fascista havido na Alemanha e na Itália da primeira metade do século passado foi o grande responsável pelas incontáveis mortes e sofrimentos de seres humanos que viviam naquele espaço e tempo.

Os horrores praticados na segunda Guerra fizeram então com que as sociedades despertassem de seu anseio pela não interpretação das leis, para perceber que, sendo ela impossibilitada, poderia ser que o uso arbitrário de poder adviesse do próprio legislativo, o que também não era desejável.


Assim, passou-se a conceber que os juízes deveriam, com efeito, aplicar as leis que tem de aplicar, porém, que estariam agora autorizados a não aplicá-la toda vez que a mesma desrespeitasse os direitos humanos. Não por outra razão, adveio nova declaração, agora denominada "Declaração Universal dos Direitos Humanos", em 1948, após o término da segunda guerra mundial.


Este novo entendimento acerca do papel do juiz faz transparecer que o Direito não é feito apenas de normas positivadas em textos legais, mas que, ao revés, deve, o mesmo, conceber os direitos naturalmente concedidos a qualquer ser humano. Neste sentido, o juiz poderia agora deixar de aplicar determinado dispositivo legal uma vez que este contrariasse os princípios relativos aos direitos das pessoas.


Neste ínterim, quanto à Declaração Universal de 1948, a mesma deve ser compreendida como instrumento destinado a justamente isso: declarar os diretos humanos. Foi posta como declaração justamente para salientar que tais direitos não são criados por este ou aquele instrumento legal, mas, ao revés, existem por si, desde sempre, devendo os Estados apenas "declará-las". Se tais direitos são implícitos à própria condição humana, é natural, outrossim, que seja declarada de maneira universal, ou seja, deve valer para todos que compartilham desta condição. É neste sentido que temos: "Declaração Universal dos Direitos Humanos".

Feitas tais considerações acerca dos direitos humanos, tem-se, portanto, que os mesmos são, como já dito, inerentes à nossa própria existência. Em suma, nasceu ser humano, tem direitos humanos, devendo os Estados (e os demais sujeitos do universo) respeitá-los.

Tal argumentação fora o que, inclusive, justificou a criação do chamado Tribunal Penal Internacional de Haia, que visa justamente punir agentes políticos que hajam infringido os direitos humanos das pessoas, mesmo que isso não implicasse em infração aos direitos positivados nos sistemas jurídicos de seu país. Fora com tal fundamento, inclusive, que se permitiu, em Nuremberg, que o oficial nazista, Adolf Eichmann, haja sido condenado à pena de morte, não obstante tenha apenas cumprido a lei de seu país (Alemanha nazista).


Retornando ao caso efetivamente em questão, tem-se que a nossa vigente Constituição Federal fora promulgada em 1988, diga-se: 40 anos após a promulgação da última declaração universal. Opera, todavia, com termos como 'cidadão' ao referir-se aos que por aqui vivem. Pergunta-se: por que?

Não teria sido mais fácil dizer simplesmente "pessoa humana"? Mais do que isso: se é o caso de 'cidadão' significar o mesmo que 'ser humano' então porque a nossa Carta faz referência a ambas as expressões como princípios diversos que devem nortear nossa nação?

Reforço: a ideia de cidadania fora posta nas legislações de cada país com este intuito: separar o joio do trigo.

Brasileiro é responsabilidade do Brasil, Alemão é responsabilidade da Alemanha...

Ocorre que, assim materializada, a cidadania termina por justamente infringir os direitos dos seres humanos, na medida em que, se há seres humanos e há cidadãos, resulta que alguns daqueles não são estes. As balizas que a cidadania impõe entre os seres humanos mostra-se mais nítida quando especificamos o 'tipo' de cidadão que estamos falando, ou seja, cidadão brasileiro... cidadão italiano.

Em uma análise superficial podemos concordar com esta ideia. Ou seja, eu cuido dos meus e tu cuida dos teus, certo? Errado!

Como já dito, no direito contemporâneo não mais consideramos os sistemas jurídicos como reles conjunto de regras escritas. São, ao revés, complexos de normas advindas dos textos legais mas também e especialmente dos princípios formadores do mesmo, tendo especial destaque aqueles atinentes à nossa própria condição, de seres humanos.

Os direitos humanos, como já vimos, são "universais", lê-se, de todos, sem qualquer distinção. Ademais, são intrínsecos, prescindindo, portanto, de positivação (não à toa foram apenas declarados, antes que criados, pelas normas internacionais).

Pois se assim o são, limitar o seu exercício a um grupo de pessoas que nasceu neste ou naquele território, colocando-lhes o rótulo de 'cidadão', é, em verdade, desprezar os tão caros direitos humanos.

Ora pois... conforme as declarações, de que o Brasil é, inclusive, signatário, os direitos humanos existem por si. Assim, não há necessidade de escrevê-los nesta ou naquela lei para que passem a valer.

Tendo, porém, escrito a palavra "cidadão" em seus sistemas legais, os países que assim o fizeram (e é a imensa maioria, senão a totalidade deles) estão em verdade dando o recado: aqui respeitamos os direitos humanos, porém só até onde a nacionalidade bater. Em suma, direitos humanos para humanos cidadãos!

Como talvez já se possa perceber, é nada mais do que o brocado conservador que diz "direitos humanos para humanos direitos" em sua versão internacional!


Eis porque reforço: a cidadania, em verdade, é um véu de castidade que os Estados colocam sobre si para dizerem-se protetores daqueles que nasceram e/ou adquiriram nacionalidade em seu território, mas que, na verdade, implica em impor limites aos direitos já anteriormente reconhecidos a todos os demais humanos que aí estão!

Pode parecer absurda esta análise. Um leitor (ou leitora) menos informado poderia me dizer que não é este o caso. Que, ao contrário, os estrangeiros que aqui estão são muito bem tratados e que, inclusive, é a eles garantida toda sorte de direitos humanos de que fazem jus.

Essa impressão desconsidera, todavia, as crises migratórias que tem havido em todo o planeta. Quiçá no Brasil isso não possa ser visto com tanta nitidez, mas... o que dizer das questões fronteiriças entre Estados Unidos e México? Cogita-se (e até onde se saber será feita) construção de um muro!!! O que falar sobre o que a Grécia tem feito com os refugiados sírios, ao abandoná-los em alto mar?


Não são todos países signatários dos direitos humanos? Então por que agem assim? Respondo: encontram na sua cidadania o limite para (des)respeitá-los.


Repito: a tão celebrada "cidadania" é, em verdade, o último resquício da opressão institucionalizada, na medida em que implica em verdadeira permissão para que países, signatários de declarações dos direitos humanos, sigam os infringindo quando se trata de estrangeiros (e pros próprios nativos, como se verá a seguir).

Poder-se-ia sustentar que os países que negam auxílio a seres humanos de outros países não o fazem por crueldade e/ou qualquer espécie de nacionalismo, mas porque temem, de fato, a total falência de seu sistema econômico acaso tenham de recebê-los.

Aceito este argumento, sem questioná-lo, para dizer: a culpa disso também é da cidadania, pois, com efeito, acaso apenas um país preste-se a verdadeiramente respeitar os direitos humanos, em sua universalidade, é possível que o mesmo sofra diversas complicações. Poderia, porém, ser auxiliado pelos demais, mas aqui, a cidadania destes, lhes diria não.

Por fim... inúmeros absurdos são praticados em diversos países ao redor do mundo, onde o Estado simplesmente não respeita sequer os direitos de seus cidadãos. Internacionalmente, porém, o que se diz, por exemplo, das mulheres que tem seu clitóris arrancado na Nigéria?


Resposta: não são os meus cidadãos, logo, não é problema meu!


Veja-se, portanto, que a cidadania ocasiona malefícios interna e externamente e impõe óbices aos direitos mais caros de todos nós.

Para os que precisam ser socorridos de seus países, migrando para outros, e àqueles que desejam, em seu Estado, permanecer.

Para falarmos sobre as pessoas e seus direitos, já temos um termo e uma declaração.

Assim, chamar de 'cidadãos' a uma parcela de humanos é, em verdade, negar direitos aos demais.

É isto e somente isto que "cidadania" quer dizer.

Não nos deixemos envolver!

Enquanto não terminarmos com as barreiras das cidadanias, não poderemos falar em Direitos humanos, em seu caráter Universal.

Neste sentido, concluo:

Engenheiro Civil? Vá lá, mas...

Cidadão não! Ser Humano!


Sobre a coluna

A coluna Homo Juris é publicada sempre às quartas-feiras.
Olá a todos, todas e todes! Tudo bem com vocês? Dentro do atual possível, aqui vai-se indo...

Na semana passada discuti a respeito da classe média e de suas atitudes individualistas, isso tudo com uma série de exemplos. Acesse aqui se quiser ler a coluna. Pois depois de fazer outras observações, tanto durante esta semana quanto buscando na lembrança outros exemplos, cheguei a conclusão que apresento no título e que irei discutir nesta coluna: somos uma sociedade doente.



É importante frisar que o "estar doente" não refere-se à crise da Covid-19, sendo algo muito mais abrangente. Assistimos diariamente momentos de violência policial sendo justificados da forma mais ignóbil pelas autoridades: quem de nós não ficou horrorizado com a comerciante de 51 anos tendo seu pescoço pisoteado por um policial na periferia de São Paulo?

No caso da comerciante vimos que o agressor agiu com extrema violência e que a reação de seus superiores foi de mostrar o óbvio "não faz parte do procedimento operacional da corporação". Ah, é? Ainda bem, né? Ao lembrar do ocorrido com George Floyd nos EUA poderíamos supor que seria um procedimento universal das polícias: capítulo I do manual de abordagem "Como se imobiliza alguém na periferia? Coloca o (a) indivíduo (a) no chão e pisa no pescoço."

Evidentemente que devemos acreditar que estas ações são exceções à regra dentro das corporações, mas, ao mesmo tempo, temos que admitir que são muitas exceções. Temos praticamente um fato isolado por dia.  Daria para fazer uma relação imensa de fatos isolados e é contra isso que devemos nos colocar e exigir das autoridades de segurança uma postura firme afim de excluir estes maus profissionais.

Um momento que causou indignação foi a ação da PM de São Paulo contra um motoboy no centro da capital paulista. Em momento algum se justifica esta atitude violenta daquele representante da forças de segurança. Nos vídeos da agressão podemos escutar o motoboy dizendo "Eu não consigo respirar", impossível não lembrar de George Floyd e seu destino fatal. Mais uma exceção.

Aqui em casa sempre acreditávamos que a sociedade sairia melhor desta crise pandêmica. Hoje não temos mais tanta certeza, ou melhor, começamos a crer que estamos recrudescendo em termos de comportamento. José Saramago, o saudoso escritor português, ao caracterizar seu pessimismo sobre a humanidade certa vez falou "Eu sou tão pessimista que acho que a humanidade não tem remédio. Vamos de desastre em desastre e não aprendemos com os erros. Para solucionar os problemas da humanidade, os meios existem  mas não são utilizados." É importante que se diga o Nobel de Literatura não viveu uma pandemia e também preciso dizer que concordo com seu pessimismo.

Será que a humanidade tem solução? Eu acredito cada vez menos numa resposta positiva.

Livro da semana: Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão

Filme da semana: José e Pilar, documentário de 2010, sobre o escritor português.

Até semana que vem.

Saudações,

Ulisses B. dos Santos.

Twitter e Instagram: @prof_colorado
PodCast SobreTudo: by Ulisses Santos

Sobre a Coluna

A coluna SobreTudo é publicada sempre às terças-feiras. (Sim, hoje é quinta.)