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O ódio se reinventa, torna-se digital e ganha uma maneira moderna de destruir vidas e famílias inteiras: a cultura do cancelamento. Deixar de seguir alguém ou simplesmente deixar de consumir o conteúdo produzido por tal pessoa não é o suficiente para a cultura do cancelamento. Os erros ou opiniões divergentes da grande massa virtual rapidamente cria uma onda de ostracismo gigantesca. Linchamento virtual e em alguns casos ameaças de morte.

O ódio insano vestido de cultura do cancelamento gera barbaridades sem precedentes. Em vários casos acaba virando caso de polícia. Mas o que seria a cultura do cancelamento? Onde ela extrapola a opinião e discordância dos seguidores ou curiosos virtuais?


Como tantas outras culturas que adoecem, a cultura do cancelamento foi importada para nosso País, criada para mudar políticas violentas das grandes e pequenas corporações. Personalidades da internet compartilhavam e faziam viralizar vídeos, áudios, documentos, enfim, algum conteúdo comprometedor, provas capazes de denunciar ações torpes das empresas. A política do cancelamento era utilizada para denunciar crimes como escravidão, ou situações análogas a ela, produção de bens a partir do trabalho infantil, matéria prima oriunda do desmatamento ou contrabando, política institucional racista etc. A denúncia ganhava proporções fora do comum, tornando-se incontrolável. A consequência era queda nas vendas, desvalorização do valor de mercado, boicote das empresas e afins.

Algo importante precisa ser considerado em relação a essa face do cancelamento, as empresas têm seus sócios e acionistas protegidos por seu CNPJ, não é comum que os proprietários tenham sua vida virada pelo avesso, sofram ameaças, inclusive de morte. As empresas, com poder econômico que possuem, rapidamente fazem controle dos danos, contratam personalidades confiáveis para o marketing social e superam a situação. Vocês lembram do assassinato ocorrido em uma unidade do supermercado da rede Carrefour? Pois bem, esse é um exemplo do que falo.


Quando essa política do cancelamento passa a ser direcionada para pessoas físicas, a situação é bem mais complicada. O ódio, o ostracismo, o linchamento chegam ao cancelado, a seus filhos, companheiros (as), mães e pais. As pessoas cancelam alguém por uma atitude errada, mas agem como hienas sanguinárias, cometem horrores que superam qualquer erro do seu alvo. Diferente das empresas, as pessoas físicas não possuem o arcabouço jurídico, não possuem o poder econômico, tampouco estão protegidas por uma razão social.

Em que essas pessoas envenenadas por ódio são melhores do que aquela que foi cancelada?

Discordar de alguém, discordar de uma atitude, de uma ação, não nos dá o direito de destruir vidas. É comum que escutemos as pessoas pregarem a evolução humana, a mudança para melhor das pessoas, a espiritualidade, mas no primeiro erro, essas pessoas enlouquecem a ponto de parar todo um país por conta de um cancelamento. A máxima de aprender com os erros deixa de existir, a outra face oferecida dá lugar ao olho por olho, os fins, para cancelar alguém, justificam os meios.

Em que você é melhor? Consegue responder?

Muitas pessoas não conseguem liberar os demônios que possuem nem mesmo quando se trancam no banheiro. Ao se olhar no espelho, sentem vergonha do que veem refletido, elas lutam diariamente, evoluem para controlar ou aniquilar essa face obscura. Elas sentem vergonha de se ver ali refletidas, nuas sem personagens. Por outro lado, diante da tela do computador, celular ou tablete, esses demônios se revelam, estão ali sendo refletidos, mas a dinâmica da tela não os deixam revelar, a única maneira de saber que ele está ali é lendo o que essas pessoas escrevem ou comentam na internet. A leitura geralmente assusta, é um conteúdo desumano. Acredito que se lêssemos com calma, antes de publicar, não publicaríamos.

A cultura do cancelamento, utilizada para esse fim, é a chave para que nos tornemos piores a cada dia, a maneira que a parte sombria que habita em todos nós encontrou de sucumbir à luz.

Por fim, desejo que cada um de nós não sejamos seduzimos por essa pratica infame.

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A coluna Brasilis é publicada sempre às quintas-feiras.
O Brasil encontra-se à deriva. Já faz mais de dois anos que entramos numa tempestade sombria de destruição de nossos direitos e conquistas. As chuvas rapidamente transformam-se em tempestades e as tempestades em tsunamis, os tsunamis, por sua vez, são traduzidos em mortes de milhares de brasileiros.

Essa catástrofe me fez pensar em colheita, como o que plantamos germina, cresce e enche nossos celeiros, tudo a partir da cultura que escolhemos semear. Engraçado é ver milhares de pessoas que plantaram o bolsonarismo querendo colher amor, empatia, respeito, crescimento econômico, vacina, defesa da coisa pública, cuidados com saúde e educação. Sinto desapontá-los, mas nada disso germinará no bolsonarismo, que veio para desconstruir o crescimento coletivo, em detrimento da defesa de seus interesses particulares.


Estamos vivendo os piores anos de nossa geração, revivendo dores causadas pela ditadura militar de 1964. Colhemos o que a maioria dos brasileiros plantou em 2018. Há um contexto perverso por detrás do processo eleitoral, é verdade, mas como diz um ditado popular: “agora não adianta chorar pelo leite derramado”, a hora é de ação, de indignação, de pressionar o sistema para frear a barbárie desse governo.

O grande problema dessa colheita maldita é que a morte e a miséria estão sendo normalizadas. O Brasil voltou para o mapa da fome e não há nenhuma movimentação para mudar isso. A pandemia do novo coronavírus voltou a matar mais de mil pessoas por dia e nós continuamos inertes em relação às cobranças pela vacinação em massa. Queremos festas, comércio aberto, cobramos dos gestores locais, mas do governo federal nada.

Há ampla defesa dos interesses próprios do homem que atua como presidente, omissão do poder judiciário e da sociedade civil, esta última surfando nessa onda pagando para ver o que acontecerá de pior.
 


Recentemente veio à tona, mais uma vez, a mensagem do ex-comandante do exército brasileiro, Eduardo Villas Bôas, dando um ultimato ao Supremo tribunal Federal - STF à época que seria julgado pela corte um pedido de habeas corpus para o ex-presidente Lula. A declaração do ex-general foi postada em uma rede social, não era segredo de justiça, mas só agora o Supremo reagiu, após publicação de um livro, em que Villas Bôas relata o fato.

Diante do exposto evidencio como nosso judiciário tem sido omisso, assim como a declaração citada, diversos outros agentes envolvidos na cena política brasileira cometem absurdos, verdadeiros atentados contra ordem democrática, os pedidos por intervenção militar e uma nova edição do AI5 são corriqueiros. O bolsonarismo sempre testa os limites da democracia brasileira. O episódio mais recente envolveu o deputado federal Daniel Silveira (PSL/RJ), preso por ordem do Supremo Tribunal Federal, após publicação de um vídeo repleto de ameaças aos membros do supremo e a ordem democrática. No vídeo, sobra ódio nas palavras ensaiadas, ataque homofóbico a um dos membros da Corte e afirmações de que os ministros são corruptos. A prisão foi ratificada pelo plenário do STF. Nos próximos dias caberá a Câmara dos Deputados analisar se cassa o mandato do deputado ou se endossa mais uma ruptura à linha democrática.

Episódios como este reforçam a tese da oposição ao defender a existência de um golpe de estado em andamento, principalmente se o atual presidente for rejeitado nas urnas em 2022. Obviamente que as ações autoritárias, as mentiras constantes e a defesa de uma única verdade que o beneficie contribuem para essa tese. Além disso a oposição vê na facilidade de acesso à compra de armas de fogo algo contundente para formação de uma milícia, um grupo paramilitar defensor de um possível golpe. O presidente da república já editou diversas medidas provisórias facilitando a compra e ampliando a quantidade de armas de fogo compradas por civis.
 

Armar a população é prioridade para o presidente da república, ação que revela muito sobre para aonde nosso País caminha. No mundo real já são quase 300 mil vidas perdidas para a Covid-19; a fome e a miséria voltaram com força às manchetes de jornal; o gás de cozinha está sendo dividido no cartão de crédito devido ao preço abusivo; o desemprego bate números recordes a cada período (são mais de 14 milhões de desempregados); e o serviço público é tratado como propriedade privada. As ações e prioridades esclarecem o que vem por aí. A prioridade desse governo é continuar no poder, sob qualquer circunstância, mas será que isso pode mudar?

Bolsonaro se ancora no apoio do exército brasileiro e na elite que domina o poder econômico, podemos afirmar que ele aposta todas as suas fichas que o exército ficará do seu lado se ele encabeçar um golpe de Estado. A pergunta que tantos se fazem é se o exército brasileiro sairá em defesa de um homem que está presidente, ou em defesa da soberania democrática do País.

Assim como em outras instituições, no exército existem forças obscuras fechadas com Bolsonaro, uma parcela que vive de privilégios, apoia quem pagar mais, quem garantir mais leite condensado, mais picanha para o churrasco, cerveja importada e mais goma de mascar capaz de mascarar o hálito fétido da corrupção e da vergonha. Por sorte, ainda há quem queira devolver ao exército brasileiro o lugar de prestígio e de respeito, há quem acredite que seja possível.

Nossa torcida é que seja breve e antes de 2022, uma vez que o presidente se apoia nesse braço do Estado para fazer as barbáries que vem fazendo com o povo brasileiro.

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A humanidade do negro tem sido a grande descoberta do Big Brother Brasil 21, obviamente que essa descoberta está atrelada a quem vive desconectado da luta pelo fim do racismo no Brasil. Observe que, quando um participante branco erra no programa, ele não fala por todo homem ou mulher branca, ele fala como pessoa individual. Quando eles brigam de maneira generalizada, como fazia Felipe Prior na edição passada, ele não fala por toda a comunidade branca, ele não é acusado de ser "desunido”, problemático, doente etc. Por que com a mulher e o homem negro isso é diferente?


O racismo tem várias faces meus amigos, ele ocupa o debate de maneira clara. Acessem o perfil de Karol Conká nas redes sociais, leiam os comentários repletos de ofensas racistas e entenda o que estou falando, combater esse racismo tem a ver com a dignidade humana, discordar dos posicionamentos dos participantes do programa é aceitável, é construtivo, mas usar isso para propagar o racismo infame, não.


Karol é uma mulher negra e, assim como uma mulher branca, tem sua personalidade construída por subjetividades múltiplas. Ela erra e acerta, esses erros e acertos são particulares de cada um lá dentro da casa. O que quero dizer com isso? Karol Conká não fala por toda a comunidade negra, tampouco tem verdades absolutas dentro da casa, no contexto do programa, ela fala por si, como pessoa individual, o mesmo é válido para Negro Di e Projota, eles não falam pela coletividade do povo negro. Algumas falas dos participantes soam como fosse difícil no Brasil ser branco, rico e com carreira bem sucedida, todos nós sabemos que isso não é verdade. Parafraseando o grande rapper brasileiro Emicida, no Brasil "tem pele alva e pele alvo".

No BBB21 existem participantes, falando como se tivessem descoberto a verdade absoluta, não é bem por aí. Primeiro, não existe diálogo quando as duas partes não debatem o assunto, conversam e esclarecem o tema em questão. Quando apenas um fala e o outro escuta, não é um “bate papo" e sim um monólogo. Segundo, e não menos importante, não existem verdades absolutas. Aprendi em minha caminhada a questionar, duvidar, pesquisar e só assim criar uma opinião particular sobre o assunto. Independente de quem esteja afirmando, é sempre bom questionar sobre a verdade colocada em cena.



Mas, por que o BBB21 está revelando para tantas pessoas que o negro tem humanidade? Essa revelação se dá diante dos erros que cada um comete, da discordância do grupo, da opção política, das subjetividades. Basta você observar, por exemplo, Lucas Penteado, Karol Conká e Negro Di, são pessoas diferentes, com opiniões e posicionamentos diferentes. Isso acontece exatamente devido a sua humanidade, eles são singulares, com todo homem e mulher branca. Parece óbvio né? Mas não é.

Imagine se acontecesse em nossa contemporaneidade, um novo episódio de tráfico de pessoas para fins de escravidão, mas não vindo do Continente Africano, dessa vez da Europa.

Primeiro saiba que a África não é um país, ela é um continente, assim como a Europa tem vários países (Portugal, Reino Unido, Itália, Franca etc.), o Continente Africano também tem.

Voltando ao nosso exemplo fictício. Desta vez foram sequestrados Portugueses, Franceses, Ingleses e Italianos. Ao chegarem ao Brasil, eles não puderam falar sua língua de origem, tiveram seus nomes trocados e foram racializados. Aos olhos da sociedade escravocrata brasileira, eles eram uma “coisa”, um “objeto” uma “posse”, a opinião de um era a de todos, a fé já não importava, foi demonizada. Esse apagamento social era para coisificar e objetificar, isso aconteceu por pelo menos 350 anos.

Foi exatamente isso o que aconteceu com o negro, sequestrado da África e escravizado no Brasil. O Continente Africano possui 54 países, só na África Ocidental temos Nigéria, Mali, Senegal, Mauritânia, Gana, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné, Libéria, Serra Leoa entre outros. O continente é composto por diversas etnias a exemplo dos Bantos e Sudaneses. Além das religiões ancestrais, há forte presença do cristianismo, do islamismo e do judaísmo, riquezas materiais e imateriais incalculáveis.

Entender parte dessa história nos faz enxergar como foi perversa a construção da imagem do negro no Brasil, saíram do Continente Africano com sua riqueza cultural, linguística e religiosa, para serem definidos como um corpo só, sem particularidades, sem multiplicidades, colocados como não humanos.

A luta por direitos e respeito do povo Preto é ancestral, vem de antes da “juventude” que ocupa o BBB21, cada negro que está dentro da casa só ocupa aquele espaço graças às lutas de muitos que vieram antes deles, personalidades como Zumbi dos Palmares, Dandara de Palmares, Tereza Benguela, Lélia Gonzales, Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Sueli Carneiro, Milton Santos, Abdias Nascimento e tantos outros não menos importantes.

Discordar, gostar ou querer que o participante deixe a casa é natural, faz parte do jogo, mas tudo isso deve ser conduzido com respeito e dignidade.

A imagem social que temos do negro foi construída por quase quatro séculos de escravidão, desconstruir essa imagem de povo único sem particularidades, direitos e desejos não é e nem será fácil.

O racismo no Brasil é forte, mas tem sido quebrado. Cada um de nós devemos nos comprometer com isso.


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No Brasil uma onda de violência vem crescendo assustadoramente, um grupo de falsos profetas, vem manipulando a fé de uma parcela de cristãos para implementar seus projetos de poder e influência política. Juntos eles cometem atrocidades que envergonharia o próprio Cristo. Esses falsos profetas usam os meios mais abjetos possíveis para incitar uma polarização macabra. Um exemplo que revoltou todos nós brasileiros, que respeitam as leis existentes, sejam católicos, evangélicos, candomblecistas, espíritas, judeus dentre outros, foi a criminalização da criança de dez anos grávida após ser estuprada pelo tio.


O Art. 128 do código penal garante o direito ao abordo em casos de estupro, logo o caso da criança estava enquadrado na lei, não caberia debate algum, muito menos tentativa de impedimento. Mesmo assim, um grupo de religiosos fundamentalistas agiu para criminalizar a criança. Para eles, a criança de 10 anos deveria seguir grávida, não importando a violência, o estupro, a perda da infância, a dor ou o desespero da menina; muito menos a lei. 

A polarização do ódio revelou-se nua, sem máscaras, sem proteção dos perfis falsos ou anônimos das redes sociais, eles se materializaram em braços erguidos que se diziam representantes de Cristo, aos gritos chamavam a criança de assassina.

Nessas horas o respeito à laicidade do Estado brasileiro é jogado para escanteio, de repente passamos a viver como se fôssemos um país de religião única, sem respeito às liberdades garantidas no Art. 5º de nossa Carta Magna, que, em seu inciso sexto, assegura a “liberdade de consciência e de crença”, sendo assim, por que esses grupos acham que podem definir nossos direitos baseados em sua crença religiosa, em sua ideologia, em seus arroubos fundamentalistas? É isso que precisamos pensar claramente.

Essa crescente de intolerância e violência religiosa é muito mais profunda que esse caso, mulheres estupradas têm vivido duas violências, uma o crime perverso cometido por seus algozes e a outra a violência emocional causada por esses grupos fundamentalistas. 

Quando falo que as questões são mais profundas, falo em relação aos ataques aos terreiros de candomblé, ao apedrejamento dos candomblecistas, a criminalização dos projetos de educação sexual nas escolas, tão importantes para que crianças como essa de 10 anos aprendam que é preciso denunciar se forem tocadas por pedófilos e estupradores.

Precisamos estar atentos, reforçar que esses falsos crentes e esses falsos profetas não são a voz dos evangélicos. Os verdadeiros evangélicos, os que respeitam a liberdade religiosa, as posições e o debate político, devem se levantar para proibir que lhes roubem a voz e tudo que eles verdadeiramente representam. Afinal, ninguém de bom caráter e boa índole deseja ser representado por charlatões sentados em seus tronos de barro. Os verdadeiros cristãos devem se revoltar ao ver o nome de Cristo sendo usado por politiqueiros mesquinhos, sem escrúpulos, verdadeiros comerciantes da fé.

Esses fundamentalistas são as peças manipuláveis dos falsos profetas que ocupam cargos públicos, alguns deles eleitos pelo povo, o mesmo povo que em seguida é perseguido e coagido.

A criança de 10 anos foi coagida a todo tempo. Mesmo dentro do ambiente hospitalar a ética foi deixada de lado. O desejo da criança foi suprimido pela ideologia religiosa que cegava a todos que a perseguiam. O modus operandi é sempre o mesmo: criminalizar e desumanizar a vítima, indo totalmente contra o que semeou o próprio Cristo – o amor ao próximo. 

Felizmente uma rede de proteção a favor da criança se fortaleceu nas redes sociais e na frente do Hospital em Recife- PE, dessa vez com final feliz. 

Esse caso serve de alerta para que percebamos como a polarização do ódio está presente em nossas vidas. As redes sociais, de maneira efetiva, contribuem para esse isolamento em polos, precisamos estar conscientes acerca disso. Tudo o que pesquisamos e consumimos em nossas redes sociais nos é “oferecido” pelos algoritmos do sistema. Sendo simplório na explicação, é esse algoritmo que faz o cruzamento do que temos pesquisado com o que está disponível, nos direcionando para bolhas temáticas. Em pouco tempo nossas redes são inundadas por aqueles assuntos que pesquisamos e assim são criadas nossas bolhas com verdades absolutas. 

Geralmente nos armamos com notícias fragmentadas, tantas vezes fora do contexto e partimos para “batalha” de narrativas. Esquecemos a importância de escutar novas opiniões, de interpretar um fato lendo e vendo diferentes produtores de conhecimento, que estejam em polos diferentes. As redes sociais, em especial o Facebook, nos entrega de bandeja o perfil de quem nos conforta e diz o que queremos ouvir. 

Para pensar brevemente o quanto isso tem sido perigoso para a sociedade de modo geral, pensemos em um pai autoritário que não permite seu filho frequentar a pré-escola porque ouviu de um especialista nas redes sociais que é perda de tempo e de dinheiro enviar uma criança para pré-escola. Por mais que sua esposa tente argumentar, trazer outras opiniões de especialistas, o marido diz que não pretende ouvir nenhuma outra opinião. Para o pai o assunto está resolvido. Para desespero da mãe, ela descobre que o tal “especialista” não é da área da educação, não tem filhos, ou muito menos tem argumentos baseados em pesquisas cientificas. O tal especialista é alguém que ficou famoso na internet porque diz o que muita gente gostaria de ouvir. Pais como esse do exemplo amplificam a cultura da burrice em meio ao caos causado pela polarização do ódio. 

É sobre isso que precisamos estar atentos. A respeito de nossa contribuição na construção de sujeitos autoritários que só aceitam dialogar se você concordar absolutamente, irredutivelmente com tudo o que ele afirmar.

Escutar opiniões de todos os polos é importante, ler diferentes veículos de informação mais ainda. Saber das leis que amparam os direitos, como a que garantiu o aborto legal à criança de 10 anos, é fundamental na formação de opinião.

As sociedades evoluem, nós podemos sim mudar de opinião, reconhecer que erramos em uma determinada avaliação, assumir nossos erros é um ato grandioso.

Em uma sociedade livre, não autoritária, todos nós podemos fazer isso. Fure a bolha construída pelo algoritmo e permita uma análise fora de sua área de conforto, cheque a informação, a fonte, o interesse oculto, duvide!

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O equilíbrio emocional salva vidas, mas acima de tudo nos possibilita enxergar as cobranças em que somos submetidos diariamente com outro olhar, com outra perspectiva. Certamente o desafio maior pode está nessa maneira de olhar nosso contexto, seja ele gerado por questões familiares, religiosas, educacionais, amorosas ou profissionais. As cobranças que somos submetidos diariamente pode nos adoecer de várias maneiras e aqui quero pontuar algumas que, inclusive, pode ser um passo ao abismo de desequilíbrios emocionais graves.


Primeiro vamos falar dos conflitos familiares (alguns na verdade). Eles podem envolver questões diversas, mas como estamos falando em cobranças, vamos exemplificar de duas maneiras. Uma tem relação com nosso futuro. Somos ensinados a ir para escola, para tirar boas notas e arrumar um bom emprego. A universidade é o segmento para essa cobrança e um ambiente que adoece muito os estudantes. Dezenas de pesquisadores se debruçam sobre o fenômeno do suicídio de universitários.

Alguns estudantes, por não suportarem o ambiente meritocrático tóxico, desistem da universidade e muitas vezes da própria vida. Nós somos transformados em uma nota de uma avaliação, como se uma nota conseguisse expressar todas as nossas competências e capacidades. Dezenas de universitários que não eram os melhores da turma estrelam casos de sucesso na vida profissional. O fato é que precisamos “ser alguém na vida”. O problema é que tantas vezes esse “ser alguém” vai além do que de fato queremos para nós. A escolha profissional, por exemplo, tantas vezes é decidida à nossa revelia. Dezenas tem seus sonhos e desejos anulados em nome de uma certeza anacrônica que vê o sucesso em uma profissão tradicional imposta pela família. 

A segunda questão envolve a sexualidade. A orientação sexual que, diga-se de passagem, tem a ver com a privacidade de cada um, portanto não deveria ser motivo para espancamentos, abandono e assassinatos. É um outro fator grave de desequilíbrio emocional, o que acontece inúmeras vezes dentro do ambiente familiar. 

Temos ainda em nosso país uma esquizofrenia continuada, em que famílias medem os seus pela orientação sexual e não pelo caráter, pelas qualidades, muito menos pelo amor fraterno. Uma violência que marca de maneira profunda, principalmente porque quem agride deveria dar amor e proteção - o pai ou a mãe. O cenário se agrava quando envolve dogmas e certezas religiosas. O fundamentalismo religioso expõe as crianças e os adolescentes a violências sem precedentes. 

Um terceiro pilar que desequilibra vem das questões amorosas e tem relação com nossas subjetividades, tudo que nos constrói ao longo da vida. Construir uma rede de proteção familiar e de amizade é fundamental para enfrentar situações que podem dilacerar nosso emocional. Dezenas de mulheres que sofrem violência doméstica se veem sozinhas, sem amparo ou perspectivas. Essa solidão é construída nesse lugar de servidão em que a mulher é submetida socialmente, um lugar que lhes é ensinado desde cedo (a mulher precisa saber lavar, passar, cozinhar, cuidar da casa e do marido) e se ela não souber o que acontece? Se essa posição lhes é ensinada, ela pode ser desconstruída e “re-ensinada” de maneira salutar. 

Quem está dentro do ambiente de violência nem sempre consegue enxergar uma solução. Essa rede de apoio precisa ser tecida por toda a vida. Para que a mulher consiga falar sobre o assunto, ela precisa ser ensinada, por exemplo, que a violência verbal é a porta de entrada para violências mais graves e que é no silêncio que o agressor se fortalece. Claro que esse é apenas um exemplo, mas o caminho para liberdade se faz da mesma maneira. O ambiente profissional é outro responsável por casos de depressão, de angústias sem fim.

Lembra que falei no início em termos que tirar boas notas e arrumar um bom emprego? Então, para isso tantas vezes nos submetemos a ambientes deploráveis, com empregadores amorais que humilham, pagam péssimos salários, são antiéticos e incapazes de liderar alguém. Mas, nossas capacidades são tão podadas que nos submetemos e adoecemos. O medo de não ser parte dessa cultura de consumo, de ostentação, de não ter a carteira assinada é cruel, até porque não somos ensinados a construir soluções partindo de nossas potencialidades. Nos ensinam a ser o empregado e não o dono do negócio. Seguir os caminhos que nós mesmos escolhermos tem relação com autoconhecimento, com evolução, a consequência é viver mais feliz, disposto a novos desafios e a novas possibilidades, no contrário continuaremos a adoecer, a cometer atos extremos contra nossa própria vida, sendo peça submissa de um tabuleiro maior. 

No ambiente familiar, no profissional ou no educacional, precisamos sentir amor por tudo, precisamos nos fazer presentes em ambientes que sejamos desejados, amados com nossas qualidades totais, do contrário, tudo se desequilibra.

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Confesso, eu não sou tão otimista para acreditar que a pandemia do novo coronavírus será capaz de mudar as pessoas, não a ponto de mudar a desigualdade social profunda que nos move. A desigualdade social é o modus operandi do Estado brasileiro, o que enfraquece as ações individuais.

É papel do Estado e seu maquinário (políticas públicas e seus arcabouços legais) definir se haverá ou não mudanças na distribuição de renda em nosso País no pós-pandemia. Afinal de contas a fome, a violência, a carência no sistema de saúde, o desemprego e o abandono da educação já eram problemas profundos de nós brasileiros e a pandemia apenas revelou essa realidade para aqueles que não viviam esse Brasil. Mesmo sendo uma questão crônica, muitos brasileiros não se sentem parte desse problema.


Não é pouco reforçar que esse modus operandi está no DNA dos Estados capitalistas e diz respeito à oferta de mão de obra barata, a redução de direitos, a asfixia da mobilidade social, a não democratização da educação de qualidade, além da precarização do trabalho.

A desigualdade é uma doença que o Estado brasileiro alimenta, face aos projetos de redução do Estado. Uma agenda política amplamente apoiada pela mídia hegemônica e por uma classe política refém do clientelismo, do lobby das grandes multinacionais e instituições financeiras que atuam no País. Esse projeto tem como objeto a privatização das estatais, a redução dos direitos trabalhistas e sociais, além do aumento de impostos. Para tanto eles usam a mesma falácia de sempre: geração de novos empregos e salvação da nação.

Recentemente o Congresso começou a discutir a reforma tributária. Sem grandes surpresas, a proposta mantém os privilégios para os setores intocáveis, principalmente os bancos. As benesses articuladas serão bancadas por nós trabalhadores, por meio do pagamento de mais impostos. É a máquina de desigualdade estatal agindo com toda a sua capacidade destrutiva.
A diminuição do Estado via austeridade fiscal e reformas criminosas nos levou ao abismo em que estamos. Afirmo isso porque o Estado já tem demostrado que se manterá com seu projeto reducionista. Já existe um discurso de que só as reformas serão capazes de reestruturar a economia brasileira. O problema é a quem servem essas reformas.

O Estado usa de um momento de fragilidade social para impetrar seus projetos de aprofundamento da desigualdade. A reforma trabalhista é um exemplo factível. O Estado usou um momento difícil em relação à geração de empregos para aprovar o projeto. O discurso era de que só a reforma seria capaz de nos salvar e o resultado foi a precarização do trabalho.

O bem estar do povo brasileiro é colocado como moeda de troca. O estado diz “ou aprova ou não melhora”, a sociedade aceita e, no fim, percebe que foi enganada, ludibriada por agentes sorrateiros. Nós continuamos pagando a conta, ora abrindo mão de direitos conquistados arduamente, ora pagando mais impostos.

Acredito que esse momento de exposição mais ampla de um Brasil vulnerável, despertou muitas pessoas, talvez elas continuem agindo e percebendo que não há como continuarmos vivendo com esse modus operandi. A mudança social não se dará sem um movimento coletivo, já não dá mais para sermos indiferentes, não há mais espaço para naturalização dessa desigualdade infame.

De maneira geral somos solidários, entretanto, essa solidariedade é muito pontual, o que me leva a lembrar do espírito natalino: aparece em um dia de dezembro e desaparece durante os outros 364 dias do ano. Lembremos que sempre existiram pessoas passando fome, sempre existiram famílias sem gás de cozinha, sem sabão na pia, sem ao menos três refeições ao dia, sem água potável, sem noção do que seria inclusão digital, mas esses problemas não afetam a todos, essas famílias eram invisíveis aos nossos olhos e voltarão a ocupar esse lugar se o Estado se manter omisso e austero.

Quando descobrimos que é o Estado e sua máquina que produzem esses vulneráveis começamos um processo de inquietude que movimenta. Tal movimento é fundamental para não naturalizarmos esse processo extremamente violento.

Apesar de estarmos mergulhados nessa crise sanitária, precisamos lembrar que estamos em ano de eleição. As mazelas sociais são usadas como objeto de campanha, os parasitas brotam a cada dois anos nas comunidades com um discurso eleitoreiro, transversal à segurança pública, ao emprego, à fome, à moradia, às ações de socorro social, à saúde e educação que tanto nos falta. Quando eleitos eles hibernam por mais dois anos.

Portanto, é de interesse desses políticos manter esse modus operandi, aprofundar a desigualdade para assim ter nas mãos uma massa desesperada, sem perspectiva, que aceita o que o Estado quiser oferecer.

Se para os políticos medíocres, promover a igualdade social seria como um suicídio, resta à sociedade civil organizada reivindicar seus direitos e condições de vida digna.

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Precisamos falar de machismo e suas consequências infames a sociedade brasileira. O machismo é uma ferida aberta, estruturante de nossa sociedade.

Quando falo que o machismo é estruturante, afirmo devido ao nosso modelo social, em que as mulheres sofrem ininterruptamente com ações machistas em todas as nossas instituições (família, religião, economia, política). Agora, se a mulher é negra a situação é muito pior, além dos marcadores de opressão de gênero, também sofre com os de raça e classe social.


Essa estruturação machista se dá através das leis, dos costumes, das religiões, do preconceito, alimentados e geridos pelo patriarcado. Ele mantém as mulheres nesta posição de subalternidade e ausência de poder, mesmo com tantas lutas e batalhas do feminismo, principalmente do feminismo negro, uma vez que são as mulheres negras que mais sofrem com essa "opressão", ainda há muito o que evoluir no que diz respeito à igualdade de gênero.

Você já leu ou ouviu em algum lugar a expressão "masculinidade tóxica", homens que cometem abusos diversos; violência emocional, sexual, agressões físicas e em casos extremos o feminicídio. Dados do Atlas da Violência, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Aplicada (IPEA) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), publicado no primeiro semestre de 2020, revela que em média 13 mulheres são mortas por dia no Brasil, desse número 66% são mulheres negras.

Alguns de nós achávamos que esse momento de medo e incertezas, gerados pela pandemia, iria gerar mais solidariedade e compreensão, mas não é o que tem acontecido aqui no Brasil e no mundo em relação à violência contra as mulheres. No Brasil houve aumento de 22% dos registros de violência desse tipo. António Guterres, secretário geral da ONU (Organização das Nações Unidas), recomendou uma série de medidas para combater e socorrer as mulheres que sofrem violências durante a pandemia, entre elas, orientou investimentos em serviços de denuncias em farmácias.

O cenário do machismo no Brasil adoece nossa sociedade, alimenta o ódio, a violência e o rancor. Um sistema anacrônico colonizador, onde a mulher é propriedade do homem.

Este texto é um convite para que você seja parte dessa batalha de desconstrução do machismo e construção de um novo homem. É nosso papel ouvir e proteger as mulheres de maneira geral, principalmente as mulheres negras. Precisamos assumir responsabilidades de ação, seja mudando nossa postura de respeito, ou na educação de nossos filhos, ou na denuncia de violência que temos conhecimento.

Para denuncias ligue 180.

É sempre bom ter uma conversa franca com cada um(a) de vocês.

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O Brasil vem registrando nos últimos anos índices de desemprego desoladores, são milhares de Marias, Franciscos e Josés em busca de meios legais para sobreviver e fazer viver seus familiares. Milhares se aventuram como autônomos, enfrentam o desafio de empreender, mesmo com os riscos e sem informações necessárias para manter o negócio aberto.


Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no último trimestre, registramos 12,9% de brasileiros desempregados, o percentual equivale a 12.7 milhões de brasileiros sem renda mensal. Os dados foram coletados pela Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios Contínua Mensal (PNAD Contínua) e divulgado na última semana de junho. Obviamente que isso é reflexo da ausência de políticas públicas que fomentem a geração de empregos, ponto que precisa ser questionado junto aos agentes públicos.

São milhares de desempregados em busca de uma solução. Uma parte deles tem se aventurado como autônomos, mergulhando no desafio de empreender, mesmo sem apoio ou experiência necessária para iniciar o negócio.

Existe na grande mídia uma romantização do empreendedorismo. Da maneira como nos é colocado, ser um Micro Empreendedor Individual (MEI) é simples. Dezenas de mães e/ou pais de família se aventuram empreendendo de suas casas, usam o que já tem em suas cozinhas, adaptam espaços, investem suas rescisões ou suas economias e torcem para que tudo dê certo.

Quando falo que existe uma romantização, me refiro às dificuldades de empreender em um País que não valoriza o pequeno empreendedor, desde o agricultor familiar que tem papel importantíssimo na produção de alimentos, à Dona Maria que abriu um pequeno negócio buscando prover sustento para seus filhos. Uma luta sem trégua para que eles estudem, sejam pessoas decentes e não sejam sequestrados pelo mundo do crime. O empreendedor no Brasil é solitário, o Estado se ausenta covardemente e falha reiteradamente na garantia dos direitos fundamentais impostos em sua Carta Constituinte.

Segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micros e Pequenas Empresas (SEBRAE), formalmente já são mais de 10 milhões de cadastros MEI no Brasil, grande parte dos empreendedores (as) iniciam seu negócio sem informações técnicas acerca de fundo de caixa, capital de giro, plano de negócio, ficha técnica dos produtos, muito menos informações de mercado ou concorrentes. Eles(as) tocam o negócio com a cara e a coragem. Aprendem com os erros e acertos na busca pela sobrevivência. Muitos têm sucesso, outros fecham as portas no primeiro ano de funcionamento, conforme pesquisa do próprio SEBRAE.

Preciso esclarecer que não estou fazendo papel de “advogado do diabo”, mas se estamos tendo uma explosão de pais e mães de família se jogando de cabeça no empreendedorismo, precisamos divulgar as informações de como mitigar os problemas que eles irão enfrentar. Precisamos, por exemplo, reforçar o apoio que o SEBRAE oferece de maneira gratuita aos Micros Empreendedores cadastrados em seu sistema. Precisamos dizer ainda que haverão impostos a serem pagos, por mais que sejam convertidos em uma única taxa mensal. Esclarecer que um Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ) aberto recentemente não terá acesso ao crédito de maneira fácil, exatamente por não oferecer garantias ao banco, ou por não ter capacidade de liquidez.

Precisamos ajudar essas pessoas a contingenciar os fatores de risco do negócio, mostrar os cuidados em compor o preço do produto, separar o dinheiro da empresa, usar as redes sociais para divulgar, de maneira gratuita, seus produtos, criar receitas para não perder a qualidade vendendo um ou dez itens de sua produção. Tudo isso parece simples, mas esses cuidados básicos podem salvar um negócio.

Sabemos que muitas famílias buscam nesses empreendimentos uma esperança para melhorar sua condição de vida e é exatamente por isso que devemos desnudar essa mensagem poética de que basta abrir um MEI que tudo se resolverá.

Não há certezas absolutas, muito menos em situações como a que vivemos, onde famílias inteiras são expostas a vulnerabilidade. O Estado Brasileiro é expert em se omitir das responsabilidades com políticas públicas, sendo a geração de emprego uma dessas responsabilidades. Enquanto o cenário não muda, precisamos encontrar soluções para nos apoiarmos e apoiar os mais vulneráveis.

Sobre a Coluna

A coluna Brasilis é publicada sempre às quintas-feiras.
O presidente do Brasil está no seleto grupo de chefes de Estado que negam a gravidade da pandemia causada pelo novo coronavírus. O Brasil tem caminhado para um abismo sem fim diante das narrativas dúbias que agravam a maior crise sanitária enfrentada por nossa geração. As ações dos estados e municípios são fragilizadas diante da defesa negacionista do governo federal. As medidas de distanciamento social são frustradas diante de um discurso infundado de cura ou baixa letalidade da Covid-19, resultando na instabilidade e insegurança do retorno as atividades sociais.



Já são quase seis meses de uma pandemia que se instala e devasta famílias inteiras por todo o Brasil, grandes e pequenas cidades, de norte a sul do país, enfrentam uma crise sanitária nunca vista por nossa geração. Parte ou grande parte do cenário instável brasileiro vem sendo causado pelo presidente Jair Messias Bolsonaro e seu discurso negacionista. Desde o início da chegada da Covid-19 no País, o presidente vem minimizando a gravidade do vírus, para ele não passa de uma “gripezinha”. Logo que contaminado usou sua condição para minimizar a doença, além de defender o uso da Cloroquina, medicamento que vem sendo alvo de duras críticas por parte da comunidade científica mundo afora, incluindo a Organização Mundial da Saúde - OMS.

No Brasil, o ministério da Saúde traçou diretrizes para uso do medicamento, uma delas é a assinatura de um termo de responsabilidade para o uso da Cloroquina, o que causou indignação na comunidade científica brasileira. Primeiro porque tanto os pacientes quanto os familiares estão vulneráveis, assustados, sem informações suficientes para decidir se usam ou não o remédio, segundo porque os estudos que o Ministério da Saúde utiliza para embasar o uso são duvidosos, tanto o estudo francês quanto o chinês são acusados de burlar fases do processo de testes, além de omitir informações cruciais que afetaram o resultado final do estudo.

O isolamento social e as medidas de higiene ainda são os “remédios” mais eficientes para combater a Covid-19. O Brasil tem sofrido ataques de narrativas sem unidade, geradoras de protocolos precoces para a reabertura de seus comércios e atividades afins. Cidades como Feira de Santana na Bahia, Caxias do Sul no Rio Grande do Sul, Aracaju em Sergipe, entre outras, abriram o comércio e precisaram retroceder em suas ações, perceberam que ter apenas leitos de UTI disponíveis não era suficiente para retorno das atividades.

O abre e fecha das cidades, nos leva a questionar: será que o debate acerca do retorno não deveria acontecer quando o cenário fosse de endemia? Nesta perspectiva o vírus estaria em uma localidade específica, com maior condição de controle ou erradicação. Será que haverá fatores contingenciais suficientes para assegurar a reabertura enquanto o cenário for de pandemia?

Essa insegurança e o caos em que o nosso País está mergulhado tem relação direta com a falta de gestão do presidente Bolsonaro. Se houvesse sintonia entre governos federal, estadual e municipal, o isolamento social teria sido mais eficiente, a pandemia já teria perdido força e, nós, não estaríamos registrando mais de mil mortes por dia em todo o Brasil.

As medidas e ações tomadas pelo presidente reforçam para cada um de nós que ele está do lado do vírus. Quando Bolsonaro sanciona leis com vetos significativos, influenciando negativamente as ações de prevenção, ele afirma estar contra nós brasileiros. Por exemplo, afirmar que não é necessária a utilização de máscaras em igrejas e templos, em escolas ou em presídios, é se aliar à morte e não à salvação de vidas. Inclusive, defender que detentos não usem máscaras revela uma ação clara de “Necropolítica” por parte de Bolsonaro.

Foto: Gabriel Paiva
A população carcerária vive em situação insalubre, em celas superlotadas, ambientes propícios para proliferação do vírus, sem o uso das máscaras haverá um surto geral da doença. Mas, isso não é tudo, além dos vetos na Lei 14.019/2020, houve vetos no plano emergencial de combate à Covid-19 em territórios indígenas e quilombolas, Lei 14.021/2020. O fornecimento de material de higiene, água potável ou desinfecção sanitária de aldeias foram cortados da lei.

Outro problema que fortalece o domínio do vírus no Brasil é a falta de insumos hospitalares, de analgésicos utilizados para intubação dos pacientes a máscaras de proteção para os profissionais de saúde. As redes sociais e os jornais estão repletos de denúncias da inércia do poder público diante da gravidade do cenário pandêmico em que vivemos.

Assistimos de maneira dócil uma guerra que tem custado milhares de vidas de nosso povo, de um lado a ciência, o bom senso, a valorização pela vida e os profissionais de saúde, do outro, o presidente negacionista e as forças genocidas do obscurantismo bolsonarista.

O resultado dessa guerra insana é o fortalecimento e domínio do vírus em diversas cidades do Brasil, que afunda em uma crise econômica e de saúde sem precedentes.

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Após a Ditadura Militar de 1964, o cenário político brasileiro não havia se tornado tão degradado, tão violento e repulsivo diante das perseguições sofridas pelas minorias como vem acontecendo em nossa contemporaneidade, mas é preciso lembrar que todo cenário tem seus produtores, seus atores, seus coprodutores e cúmplices. Construído a partir de fake news, de manifestações antidemocráticas, denúncias escandalosas de corrupção a exemplo das rachadinhas, lavagem de dinheiro, enriquecimento ilícito, além de uma rede de proteção paramilitar as milícias. Resultou nessa cena necrosa que vivemos uma pintura obscura de violência e ataques a democracia.



Obviamente que essa estrutura, essa rede criminosa tem um custo alto, e as investigações preliminares apontam para o financiamento público, isso mesmo, somos nós que pagamos, são nossos impostos que financiam essa rede de ódio, de ameaças, de intimidação e perseguição de opositores políticos.

As eleições de 2018 foram marcadas e estruturadas por disparos em massa de mensagens falsas. A grande maioria para exterminar reputações de adversários políticos. As fake news tomaram tamanha proporção no cenário político brasileiro, que não só elegeram vários candidatos a cargos importantes, como levou o Supremo Tribunal Federal - STF a instaurar inquérito para investigar o que, segundo o Ministro Alexandre de Morais, viria a ser uma “associação criminosa”, mas é preciso lembrar que isso só aconteceu quando os membros do Supremo Tribunal Federal viraram alvo dessas ameaças, antes disso diversos opositores políticos foram ameaçados, perseguidos, agredidos e tiveram inclusive que sair do país, a exemplo do deputado federal, escritor e professor Jean Wyllys.

As investigações avançam e sempre há ligação dos Bolsonaro. As investigações que miram o gabinete do ódio, instalado no Palácio do Planalto, financiado com dinheiro público esbarra na família Bolsonaro, o inquérito que investiga “rachadinhas” e lavagem de dinheiro também, episódio que se agravou nos últimos dias após prisão do suposto operador, Queiroz foi preso, sua esposa encontra-se foragida. As investigações do Ministério Público Federal do Rio de Janeiro apontam para indícios de uma sofisticada organização criminosa, eles atuaram na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro – ALERJ a época que o filho de Bolsonaro era deputado estadual. As denúncias ligam a família a uma rede de milicianos, ora funcionários, ora seguranças ou amigos, eles transitaram livremente nos gabinetes, nas homenagens, nas festas e reuniões da família.

Para além de todas as investigações de denúncias que paralisam o governo, tramita no Tribunal Superior Eleitoral um pedido de cassação da chapa Bolsonaro/ Mourão, somado a tudo isso, ainda temos que suportar a inércia do Presidente frente à pandemia mortal do coronavírus.

Diante desse cenário espúrio, viciado, frágil e problemático, fica a seguinte pergunta: o que faz a sociedade brasileira manter no poder a histeria bolsonarista? O que faz o senhor Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados ignorar os quase 50 pedidos de impeachment protocolados contra o Presidente Jair Messias Bolsonaro?

A resposta é irrefutável, o que mantém Bolsonaro em Brasília, ocupando a cadeira de Presidente, mesmo já tendo demonstrando total incompetência e incapacidade, é o poder econômico, o que aqui chamaremos de 1% Vagabundo, afinal é esse um por cento da sociedade brasileira que detém toda a riqueza do país. Perceba que todos os ataques do governo Bolsonaro a educação, ao meio ambiente, a saúde, a rede de assistência social, todos foram aceitos por eles de maneira passiva. Só houve mudança quando Bolsonaro se aproximou de movimentos fascistas, acenando para o autoritarismo militar. Neste momento o poder econômico resolveu usar as armas que detém para dar um freio e devolver o Presidente para seu cercadinho. O surto dos Bolsonaro poderia custar caro, poderia causar perdas financeiras graves, para eles a precarização dos serviços públicos é meta, nada pode ser empecilho.

Prova disso é a redução do Estado, que vem escamoteada por um discurso de liberdade econômica. O Ministério da Economia, chefiado por Paulo Guedes, tem passe livre no exercício de sua política de morte, com apoio dos democratas de plantão, simplesmente porquê defende os pacotes de austeridade - reformas e privatizações do patrimônio nacional.

A prisão de Queiroz, a volta do risco a cassação da chapa eleitoral, o inquérito das fake news, surgem como resposta ao movimento bolsonarista. O resultado é óbvio, Bolsonaro já fala menos, está voltando a ser peça domesticável no tabuleiro político brasileiro.

O poder econômico se move, acena com o osso e se vacilar o jogará no abismo.

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